Há tempos que o jornalismo não me tem valido a pena. Tanto pela fineza das edições quanto pela dificuldade em caçar alguma matéria em meio a tanta publicidade — há páginas centrais em que a notícia serve literalmente de moldura para anúncio de concessionária. O que me espanta mesmo é a queda vertiginosa na qualidade dos textos, qualquer que seja o veículo. E nem estou falando dos tempos daquele jornalismo romântico, quando (teoricamente) havia mais tempo para burilar as matérias e não havia as atuais metas de produtividade, calculando em tempo real quantos caracteres você digita por minuto.
A Folha do dia 20 de julho publicou matéria sobre a estreia literária de uma garota de programa formada em Letras, com título que soava e brilhava como fogos de artifício. É, de fato, haja artifício pra sustentar aquilo. Era impressionante perceber ao longo do texto como a repórter se deixava enredar pelos argumentos da nossa Marguerite dos trópicos, a despeito de serem tão banais e batidos. Como quando ela diz que sua sexualidade era aflorada desde tenra idade porque “colocava o Ken e a Barbie sem roupas, um em cima do outro, e simulava o ato sexual”.
Deus, e eu perdendo tempo no jornalismo, quando minha verdadeira vocação, aliás a de uma geração inteira, era outra...
Nessas horas, depois dos anos de redação e de tanto esporro que já levei, eu me pergunto: onde estava o editor pra fazer aquelas perguntas básicas, de manual de jornalismo?
Cadê a novidade dessa matéria? Qual é o interesse?
Porque, no quesito novidade, meu bem, convenhamos: prostitutas que escrevem livros eróticos há muito é um subgênero literário: da ninfeta alemã Christiane F. ao blog britânico Belle de Jour (que depois descobriram que era uma pesquisadora fingindo ser prostituta), passando por Bruna Surfistinha, Vanessa de Oliveira e agora esta Lola Benvenutti, que pretende “inovar” revelando o mundo de luxo e ostentação das festas privées de Ribeirão Preto — e, sinto informar, Alexandre Dumas Filho já fez isso 176 anos antes de você. E talvez a única coisa que realmente consiga é “sair da vida”, porque a razão de ser do privé é exatamente ninguém ficar sabendo; e cidade do interior, por maior que seja, nunca deixa de ser provinciana, e vingativa com quem não segura a língua na boca.
Mas deixa quieto.
Não estou aqui para avaliar a qualidade dos textos da moça. Até porque não pude, pois o blog em que ela escreve está fora do ar desde ontem, talvez para criar expectativas para o lançamento do livro em agosto. Nem questionar suas pretensões e seu esforço em reformular sua persona — talvez após uma análise dos textos eu pudesse descobrir que, como escritora, ela é uma boa marqueteira. Mas é estranho que quem escreveu a matéria não tenha ido buscar essas pequenas nuances, os contraditórios que geram os furos e geram as grandes matérias, reportagens, afinal é com isso que todo estudante de Comunicação sonha trabalhar. Ou não?
Basta uma simples comparação entre as fotos feitas para a matéria e uma simples pesquisa de imagens dela no Google. Nas fotos para o jornal, há um claro esforço da moça em imprimir para si uma imagem de bem-comportada, quase aristocrática, não fosse a saia curta e as tatuagens, que se encaixam no modelo por conter citações a Manuel Bandeira e Guimarães Rosa (Zzzzzzzzzzzzz). “Ao posar para a Folha, [Lola] tentou manter uma imagem de glamour, distante do estereótipo de uma garota de programa. ‘A minha proposta não é aparecer com a bunda de fora na TV, ter 15 minutos de fama e falar que saí com jogador de futebol’, diz ela”.
Um passar de olhos do histórico de imagens de nossa Lolita, entretanto, faz essa construção cair por terra. Porque há dezenas de fotos em que ela simplesmente está com tudo e mais um pouco de fora, o que faz todo o sentido para uma mulher que vive de explorar o corpo e a sexualidade, servindo de base para a sua verve literária. A própria mecha branca, que ela cultivava bem no topo da cabeça, ainda pode ser levemente percebida num tom loiro escuro em sua “versão pudica”, se você observar bem de perto.
Repito: ela tem todo o direito de querer reverter essa imagem, torná-la mais adequada para esta guinada na carreira. Mas o jornalista tem o dever de não cair nessa, deixando passar o fato de que a moça sensualiza até na foto do Currículo Lattes. Num tempo em que jornalistas bufam só de pensar na palavra trabalho de campo, precisei de uma olhadela no Facebook pra descobrir que ela também se esmerava em registrar sua trajetória acadêmica de estudante de Letras da UFSCar, em que consta ser, desde 2011, bolsista de Iniciação Científica PIBIC/CNPq — com dedicação exclusiva (!). Logo a Folha que, como diz o matuto, se pabula de escavucar esses meandros... perdeu no mínimo uma piada pronta pro José Simão!
Errou rude, filha!
Por essas e outras que não é preciso ser do métier para ver o quanto a apuração do nosso noticiário tem se tornado displicente. Ou porque quem escreveu é amigo ou gostou tanto do tema que não questionou nenhum dado fornecido pelo entrevistado ou porque o repórter estava com a cabeça nas outras quatro pautas escritas em simultâneo a ponto de executar a atual na base do piloto automático. Também há uma terceira possibilidade, que exime em parte o repórter, mas não o sistema: pode ser uma matéria REC, diminutivo para matéria recomendada.
Alguém com algum poder — presidente, diretor, editor, anunciante da empresa jornalística ou mesmo um parente ou qualquer outro apaniguado dos quatro primeiros — pede para que se faça uma matéria sobre determinada pessoa, fato ou evento. Elogiosa, claro. E a tarjeta de REC, invisível, entretanto é mais que suficiente para se fazer vista grossa a certas regras de apuração, redação e edição. Por que eu sei disso? Porque eu já fiz, e muito, antes que comecem a dizer que isso aqui é crônica de recalque (ainda que não vá impedir). Porque se você não faz é despedido e substituído por dois estagiários que trabalham o mesmo tanto ou mais e recebem um sexto do que você ganhava, quando não ganham só “experiência” e um tapinha nas costas.
O que me cansa mais nisso tudo não é o sistema, pois ele foi desenhado para ser mais e mais predador. Nem mesmo a incapacidade de reação da categoria ou a leniência de boa parte dos sindicatos. O problema é que mesmo com todo o cansaço, todo o cinismo, todos os recordes de inscritos em concursos públicos para concorrer a uma única vaga, há uma insistência atroz em professar uma paixão desmesurada por uma profissão que pouco ou nada corresponde às expectativas. E transformam o salário escorchante, as horas excessivas de trabalho e o tratamento humilhante por parte de certos editores ou colegas de equipe em motivo de orgulho, em forjador de caráter. Quem não aguenta é porque “não é bom o bastante”, “devia fazer outra coisa”.
Se formos acreditar numa pesquisa saída recentemente, em que o jornalismo figura entre as profissões ameaçadas de extinção, não sei o que vai ser dessas pessoas se seu objeto de desejo sumir antes que se aposentem. Acho que por isso eu nunca gostei de trupe, de turma ferrada que só sabe sair junto e falar do que têm em comum. Mesmo no jornalismo, que eu adoro, mas trato como trabalho, não como profissão de fé.


Nenhum comentário:
Postar um comentário